
Acompanhe a saga da construção do Estádio Walter Ribeiro (CIC) e sua inauguração, que contou com o esquadrão tricolor do São Paulo Futebol Clube, chuva intensa, vento forte, sol de rachar, paraquedista errando o alvo, atropelamento de criança e torcedor distribuindo guarda-chuvadas.
Vamos relembrar mais uma saga do clube beneditino de Sorocaba.
Do Humberto Realle à nova casa
O São Bento mandava suas partidas no mítico Humberto Realle, um verdadeiro alçapão capaz de intimidar a muitos.
Estádio raiz e acanhado, que possibilitava até acompanhar os jogos nos telhados das casas vizinhas. Um estádio sem conforto, feito para vibrar, xingar e torcer. Nas palavras da reportagem do Cruzeiro do Sul:
“Permanecer no estádio, durante a partida, em meio a multidão que se acotovelava nas precárias arquibancadas do Humberto Realle sentindo o tão falado ‘cheiro de povo’, exigia um grande entusiasmo pelo futebol”.
O São Bento, após muitos anos como clube amador, se profissionalizou e ascendeu à divisão de elite do Campeonato Paulista. Com isso, o povo clamava por uma nova casa, moderna, capaz de acomodar melhor a torcida e alçar o São Bento a voos maiores.
A diretoria do time acreditava que, com o novo estádio, o Bentão cresceria e tomaria um lugar entre os grandes de São Paulo:
“Uma realidade embrionária, com 18.000 lugares, mas que poderá ao longo dos anos abrir mais espaços, até para os 50 mil, de acordo com a necessidade do próprio futebol do São Bento, que também deverá crescer.”
Mas, como tudo na vida do São Bento, não seria fácil tirar esse projeto do papel; seriam 10 anos de provação até a inauguração do CIC.
Construção do CIC: Uma década de espera
Em 1968, os planos para a construção do estádio já estavam prontos. Mas, como dizem, planejar é uma coisa, fazer é outra…
Foram idas e vindas, falta de verbas, obras paralisadas. Moradores do entorno chegaram a reclamar que o espaço estava abandonado e sendo utilizado por marginais.
Entre os problemas que surgiram, um dos mais curiosos foi a discussão das medidas do gramado. Como o estádio era projetado para receber diversas competições, a medida do gramado era limitada a 70 x 100 por causa da pista de atletismo. Alguns queriam sacrificar a pista para aumentar as dimensões, outros se mostravam contra, alegando que não era apenas um estádio de futebol.
Finalmente, em outubro de 1978, o estádio foi inaugurado em um duelo pelo Campeonato Paulista entre São Bento e São Paulo.
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A inauguração e a polêmica do nome
A inauguração do CIC foi marcada pelo duelo contra o São Paulo pelo Campeonato Paulista no dia 14 de outubro de 1978.
O nome do estádio é uma homenagem ao jornalista Walter Ribeiro, que havia morrido de forma trágica em um acidente de automóvel, aos 25 anos de idade.
Muitos colocam como posterior a homenagem, contudo a matéria do dia seguinte à partida já utiliza o nome de Walter Ribeiro como patrono ao mencionar o estádio. Leia a seguir:
“O time do Esporte Clube São Bento, com Arlindo Galvão à frente, surge no gramado do Centro de Integração Comunitária ‘Walter Ribeiro’, sob os aplausos da torcida” (15/10/1978).
Inclusive, a mãe do jornalista recebeu, antes da partida, como homenagem, o brasão de Sorocaba.
A polêmica do nome: Walter Ribeiro ou o Prefeito?
Outra figura que marcou presença foi o então prefeito de Sorocaba, Theodoro Mendes, que proferiu um rápido discurso. O clima político da época também estava presente na partida, segundo o jornal Cruzeiro do Sul. Num determinado momento, um grupo de torcedores gritava que:
“não há necessidade de nome para o nosso estádio”.
No caso específico, o protesto era direcionado ao prefeito da cidade.
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A festa sob chuva e incidentes

O São Bento vinha de duas partidas fora de casa: um belo empate em 0 x 0 com o Santos na Vila Belmiro e uma derrota para o Comercial em Ribeirão Preto por 3 x 0.
O São Paulo vinha com muitos desfalques na temporada – oito desfalques – e de uma vitória magra por 1 x 0 contra a Portuguesa Santista no Pacaembu, além de muita desconfiança por parte da torcida.
As festividades de inauguração contaram com apresentação da Escola de Samba III Centenário, um show de paraquedismo e a bênção do Bispo Dom José Melhado Campos.
Aquele dia amanheceu nublado e, antes de o jogo iniciar, a chuva começou com tudo. Relatos do dia seguinte afirmam que a cidade foi castigada pela chuva, como mostra a manchete da época:
“Chuva provoca acidentes: seis pessoas feridas”.
O campo resistiu bem à chuva; contudo, a drenagem das arquibancadas falhou, gerando uma “piscina” nos degraus.
Incidentes inusitados
Entre os incidentes relatados na inauguração, pode-se destacar um dos paraquedistas que deveria pousar no campo: acabou sendo desviado pelo vento e caiu fora do estádio, sendo socorrido com sucesso pela ambulância.
Também, um menino de 10 anos foi atropelado na frente do estádio e um torcedor tricolor arranjou briga com a torcida do Bentão.
Um torcedor de 50 anos com a camisa do São Paulo e um guarda-chuva apareceu no meio da torcida uniformizada do São Bento. Os torcedores pediram que ele se retirasse, e um jovem torcedor beneditino encostou uma bandeira no rosto do senhor, que prontamente respondeu com guarda-chuvadas. A confusão foi controlada e o senhor foi retirado da arquibancada.
O jogo: São Bento x São Paulo, Campeonato Paulista de 1978

O São Bento mandou a campo a seguinte escalação:
Ubirajara, Chiru, Arlindo Galvão, Arlindo Nilo, Batata, Fernando, Laerte (Carlinhos), Gatãozinho, Américo (Pitanga), Lance e Tuim. Destaque para Arlindo Galvão, que iria enfrentar seu ex-time, o São Paulo. Arlindo foi revelado pelo Tricolor e contratado pelo São Bento por 400 mil cruzeiros.
O São Paulo chegou desfalcado para a partida devido às muitas lesões, além de estar enfrentando a desconfiança da torcida. A principal ausência era a do zagueiro Dario Pereyra.
O time que entrou em campo foi Valdir Peres, Getúlio, Estevam, Bezerra, Antenor, Chicão, Tecão e Armando (Muller), Zequinha, Milton (Valtinho) e Edu.
Diante de um público de mais de 21.928 pagantes, o São Bento tentou de todas as formas marcar, mas esbarrava nas defesas do goleiro Valdir Peres, que estava em um dia iluminado.
O São Paulo chegou ao gol em jogada de ataque aos 36 minutos. Getúlio cruzou pela direita, Fernando resvalou de cabeça e a bola sobrou para Edu, que acertou um chute no canto direito do goleiro Ubirajara.
Após o gol, o Tricolor Paulista começou a jogar no contra-ataque e o São Bento pressionou o segundo tempo inteiro, sem sucesso. A partida terminou 1 x 0 para o São Paulo.
Um olhar para o futuro: O legado do Walter Ribeiro
Abaixo Charge publicada no Jornal Cruzeiro do Sul em 12/10/1978

Uma nova era na história do São Bento se iniciava. Uma nova casa, moderna e maior, capaz de gerar mais receita e interesse do público.
A reportagem previa um futuro de glórias para o Bentão de Sorocaba, como na frase a seguir:
“Uma nova era em sua vida esportiva: a era do futebol espetáculo”.
Os anos se passaram, o estádio deixou de ser moderno, os grandes confrontos contra os poderosos de São Paulo ficaram na memória. Mas entre altos e baixos, rebaixamentos e acessos, tristezas e alegrias, a chama do clube beneditino segue viva.
Fontes consultadas
Jornal Cruzeiro do Sul. ( 12/10/1978). São Bento cai frente ao Comercial: 3 x 0. Disponível em https://digital.jornalcruzeiro.com.br/pub/cruzeirodosul/?numero=21292&edicao=22364#page/8
Jornal Cruzeiro do Sul. (14/10/1978). CIC, o dia que a cidade esperava. Disponível em: https://digital.jornalcruzeiro.com.br/pub/cruzeirodosul/index.jsp?serviceCode=login&numero=21294&edicao=22366#page/21
Jornal Cruzeiro do Sul. (15/10/1978). Na inauguração do CIC, a derrota do S. Bento ontem. Disponível em: https://digital.jornalcruzeiro.com.br/pub/cruzeirodosul/?numero=21295&edicao=22367#page/15
Site oficial do EC São Bento. Disponível em: https://www.ecsaobento.com.br/site/
Links úteis
Site da Federação Paulista de Futebol;
Site do Esporte Clube São Bento;
Siga o Instagram do site Giro Esportivo RMS.
Saudades. Bons tempos. Apesar da derrota, era um tempo em que os torcedores iam tranquilos ao estádio porque sabiam que o time não o decepcionaria.