Tatuí 200 anos: O berço do primeiro gol no exterior

Seleção da Liga Paulista na Argentina em 1913.
Seleção Paulista. 1913. Fonte: Ernesto Bavia.

Juvenal de Campos Filho está eternizado como uma das figuras mais emblemáticas da indústria tatuiana. Contudo, poucos sabem que, antes de brilhar como industrial, Juvenal foi jogador de futebol e marcou o primeiro gol brasileiro em terras estrangeiras.

A vítima do talentoso tatuiano não poderia ter sido outra: um combinado de grandes clubes argentinos, diante de 15 mil pessoas em Buenos Aires.

Tatuí 200 anos: terra do futebol

Neste ano de 2026, Tatuí completa 200 anos de uma história riquíssima ligada ao desenvolvimento industrial do interior paulista e à música.

Contudo, os talentos tatuianos não param por aí. Cabe a este povo o título de serem os primeiros a marcar um gol em terras estrangeiras, diante de um poderoso combinado de jogadores argentinos.

A data não poderia ser mais emblemática; 10 de agosto de 1913, um dia antes do aniversário da cidade. E que presente Juvenal, o famoso “Nana”, deu a este povo.

Juvenal de Campos Filho: o craque dentro e fora dos campos


Juvenal de Campos Filho nasceu em 1895. Nana era de uma importante família da indústria têxtil, a Campos & Irmãos.

Na juventude, Juvenal dividia o seu tempo entre os estudos acadêmicos e o futebol. Naquela época, o futebol ainda era amador e elitizado no Brasil, e muitos atletas estudavam ou exerciam alguma atividade paralela ao esporte.

Juvenal chegou a jogar em grandes clubes da época, como o Paulistano e o Flamengo. No ano de 1913, surgiu a oportunidade de participar de uma excursão de jogadores paulistas pela Argentina e pelo Uruguai.

O duelo entre brasileiros e argentinos em 1913


Entre os anos de 1908 e 1912, equipes argentinas vieram ao Brasil disputar amistosos. Com isso, jogadores da Liga Paulista decidiram retribuir essa visita no ano de 1913.

Uniforme do Americano em 1913
Uniforme do Americano em 1913.

Foi formada uma seleção paulista com atletas do Americano (uma das principais forças da época e bicampeão paulista), Ypiranga e outros, para fazer frente ao talento do selecionado argentino, que contava com jogadores de grandes equipes locais.

Entre os jogadores convocados para as disputas estava o lendário Friedenreich, o “El Tigre”, como era chamado — a primeira grande lenda do futebol brasileiro e autor do gol do título da primeira Copa América vencida pelo Brasil, em 1919, sobre o Uruguai.

O clima do jogo: a questão da erva-mate


Na época do jogo, os jornais argentinos e brasileiros estavam tomados por uma questão diplomática envolvendo os dois países.

O Brasil exportava erva-mate para a Argentina. Contudo, produtores argentinos começaram a plantar a sua própria erva-mate e pressionavam o governo a taxar a erva-mate brasileira.

O clima entre os jornais parecia sair do controle. Com isso, o ministro brasileiro Souza Dantas realizou encontros – na época do jogo – com ministros argentinos para resolver de forma diplomática o conflito.

Em meio a essa disputa envolvendo a exportação de erva-mate, o time brasileiro desembarcou na Argentina. Jornais da época noticiam que os brasileiros foram muito bem recebidos pelo povo e pelas autoridades argentinas.

O Correio da Manhã, edição do dia 13 de agosto de 1913, noticiou que o time brasileiro participou de um almoço, oferecido pelo ministro brasileiro Souza Dantas, com jornalistas e autoridades argentinas.

O ministro da Agricultura argentino desmentiu os boatos lançados pelos jornais de que seu governo iria proibir a importação da erva-mate brasileira e reforçou os laços de amizade com o Brasil.

O jogo: Seleção Paulista x Argentina


A partida ocorreu no antigo estádio do Racing, em Avellaneda, Buenos Aires, diante de um público de 15 mil pessoas. Muitas famílias brasileiras compareceram ao duelo.

Escalação das equipes:


A seleção paulista contava com a base da equipe do Americano, com a adição de alguns atletas de outros times paulistas.

Encontramos algumas divergências na escalação da equipe brasileira. No conceituado livro “El Football en el Rio de la Plata”, do autor Ernesto Escobar Bavio, o selecionado paulista é o seguinte:
Hugo de Moraes, F. Neto, J. Menezes, A. Bertone, J. Bertone, R. Thiele, Frienderich, J. Campos, Vecari (capitão), Mouth, Xavier.

Já no site de estatísticas futebolísticas “Rsssfbrasil”, a equipe brasileira é apresentada com a seguinte escalação:
Hugo de Moraes, Chico Neto, Menezes; A. Bertone, J. Bertone, Thiele; Formiga, Alencar, Friedenreich, Juvenal Tarquínio, Décio. Técnico/Coach: Décio Viccari.

Entre as divergências, podemos destacar os atletas Alencar e Formiga no site da “RSSSF Brasil“, enquanto que, no livro de Ernesto Escobar Bavio, aparecem no lugar Mouth e Xavier.

Essa discrepância pode ser fruto de algum erro de tradução, como no caso de “Vicário”, que aparece no livro argentino como “Vecário”. Já no site da “RSSSF Brasil” aparece como Décio, primeiro nome de Décio Vicario. O atleta Formiga possivelmente é Afrodísio Xavier Camargo, listado como Xavier no livro de Ernesto Escobar Bavio.

A escalação do selecionado argentino é a mesma nas duas fontes consultadas:
Pearson, Chiappe, Brown, Negri, Ohaco, Olivari, Calomino, Susan, Hutton, Ameal e Viale.

O gol imortal de Juvenal de Campos Filho


Segundo relatos, a equipe brasileira entrou em campo ovacionada pela torcida argentina, e o clima era de cortesia no estádio.

Todos esperavam uma vitória da equipe argentina, já que na época o futebol argentino estava em um estágio superior em relação ao futebol brasileiro, extremamente amador. Mas, contrariando as expectativas, a equipe brasileira deixou o primeiro tempo vencendo por 2 a 0.

O primeiro gol brasileiro em terras estrangeiras foi marcado pelo tatuiano Juvenal de Campos Filho, aos 33 minutos do primeiro tempo. Juvenal recebeu um passe de Xavier (Formiga) e mandou um balaço para as redes. Leia o relato de Ernesto Escobar Bavio (página 186):

A Los 33 minutos, Xavier, en posesion de la pelota, avanzo por el costado izquierdo e hizo el centro sin mayores dilaciones. Campos, que corria a la altura de su companero de linea, lo recibió y con un tiro rápido, largo y cruzado, batió a Pearson, en médio de no poca sorpresa. ”.

O jornal Correio da Manhã, na edição de 11 de agosto de 1913, credita o primeiro gol brasileiro a Alencar após um forte chute. Leia o trecho:

“Depois de 33 minutos de cerrado ataque, num violento “ ”shoot” Alencar conseguiu marcar para o “team” brasileiro o seu primeiro “goal”, abrindo dessa maneira o “score” ”

Apesar de o Correio da Manhã creditar o primeiro gol a Alencar, tanto o livro de Ernesto Bavio quanto o respeitado site de estatísticas futebolísticas “Rsssf Brasil” creditam o primeiro gol a Juvenal de Campos Filho, confirmando a autoria tatuiana.

Naquela época, os jornais brasileiros recebiam as informações via telégrafo, tornando a comunicação limitada e sujeita a erros, fato que explica a confusão na autoria do gol brasileiro.

Logo após o primeiro gol, o time brasileiro ampliou o placar com Décio Vicario, após passe de Juvenal de Campos Filho, que terminaria a partida com um gol e uma assistência.

O jornal Correio da Manhã e o site de estatísticas Rsssf Brasil creditam o segundo gol a Décio; já o livro de Ernesto Bavio credita a Vicário. Acreditamos que se trate do mesmo jogador, Décio Vicário.

No intervalo da partida, a equipe brasileira recebeu a visita no vestiário do ministro brasileiro Souza Dantas, que estava em meio às negociações com o governo argentino na questão da erva-mate.

Segundo tempo


No segundo tempo, a equipe argentina tentou pressionar, mas não foi capaz de superar a defesa brasileira, com destaque para o goleiro Hugo, que fez belas defesas. Leia o trecho do jornal Correio da Manhã:

Aproximava-se então do final a luta. O povo das arquibancadas aclamava os foot-ballers brasileiros, havendo ansiedade por parte de todos pela decisão final do jogo. Minutos antes de terminar o segundo tempo, os argentinos avançam, no que arrastados por uma só vontade, destacando-se Ameal que com um valente ‘shoot’, tentou um último esforço, sendo impedido no êxito pela inexcedível defesa com que Hugo parou o lance. Calomino no aparente momento para repetir o feito e salvar da derrota o ‘team’ argentino, não conseguindo também graças à perícia e calma com que Hugo voltou a mostrar a superioridade na luta. Depois de outros lances interessantes, coube a vitória aos brasileiros na proporção de dois ‘goals’ contra zero.”

Entre os destaques da histórica vitória brasileira, podemos destacar, além de Juvenal de Campos Filho – autor de um gol e uma assistência –, as grandes defesas do goleiro Hugo e a atuação dos irmãos Bertone.

Consagração da equipe brasileira

Recortes dos jornais Correio da manhã e Cruzeiro do Sul em 1913.
Recortes dos Jornais Correio da Manhã e Cruzeiro do Sul. 1913.


A vitória brasileira foi destaque nos jornais. Confira algumas manchetes:

Correio da Manhã, dia 11 de agosto de 1913. Brasileiros e argentinos. Os “Foot-ballers” brasileiros provocam grande enthusiasmo vencendo por dois contra zero

Cruzeiro do Sul, dia 13 de agosto de 1913
A victoria dos paulistas na Argentina

Os jornais argentinos creditaram a derrota à falta de entrosamento de seus atletas, principalmente no ataque, e aos ventos.

O time brasileiro ainda visitou jornais e participou de um almoço com personalidades e jornalistas antes de rumar para jogar no Uruguai. A vitória brasileira sobre o selecionado argentino causou alvoroço na torcida uruguaia, que esperava ansiosa a chegada dos brasileiros.

O Marco Zero de uma História de 5 Estrelas

Aqueles guerreiros paulistas que praticavam de forma amadora o futebol no Brasil estavam em terras estrangeiras dando os primeiros passos de um futebol que encantaria o mundo todo nas próximas gerações. E coube a um tatuiano atravessar pela primeira vez as redes estrangeiras, sendo motivo de orgulho para Tatuí, que completará 200 anos em 2026.

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Fontes consultadas

Christian Pereira de Camargo; Renato Ferreira de Camargo. (Livro). Tatuí. Capital da Música. Editora Noovha America. 2006.

Conquista da primeira copa america pela selecao brasileira completa 100 anos. Disponível em: https://www.estadao.com.br/esportes/futebol/conquista-da-primeira-copa-america-pela-selecao-brasileira-completa-100-anos/?srsltid=AfmBOooKjPVCQGsQEb9S0ZnIiJzeXwICZ2HpOfMir-gqTk36zeipEMv-

Correio da Manhã. ( Jornal). 11/08/1913. “ Foot-ballers” brasileiros provocam grande enthusiasmo vencendo por contra zero. Disponível em: https://archive.org/details/1913-agosto-01-a-31/1913%20Agosto%2011%20Segunda-feira/page/n6/mode/1up

Correio da Manhã. ( Jornal). 12/08/1913. Ainda o “Match” entre argentinos e brasileiros. Disponível em: https://archive.org/details/1913-agosto-01-a-31/1913%20Agosto%2012%20Ter%C3%A7a-feira/page/n5/mode/1up

Correio da Manhã. ( Jornal). 14/08/1913. Foot-ball. Disponível em: https://archive.org/details/1913-agosto-01-a-31/1913%20Agosto%2014%20Quinta-feira/page/n4/mode/1up

Cruzeiro do Sul. ( Jornal). 13/08/1913. A victoria dos paulistas na Argentina. Disponível em: https://digital.jornalcruzeiro.com.br/pub/cruzeirodosul/index.jsp?serviceCode=login&numero=2190&edicao=4071#page/2

Cruzeiro do Sul. ( Jornal). 23/08/1913. Foot-ball. Disponível em: https://digital.jornalcruzeiro.com.br/pub/cruzeirodosul/?numero=2198#page/2

Ernesto Escobar Bavio. EL FOOTBALL EN EL RIO DE LA PLATA. Buenos Aires, 1923. Editorial Sports.

História do Futebol.(Site). Sport Club Americano – Santos / São Paulo (SP). Disponível em: https://historiadofutebol.com/blog/?p=82978

RSSSFBrasil. (Site). JOGOS INTERNACIONAIS DO FUTEBOL BRASILEIRO 1903-1914. Disponível em: https://rsssfbrasil.com/sel/brazilcomb.htm

Viejos estadios.( Site). Los orígenes de los clásicos con Brasil (1908-1914). Disponível em: https://viejosestadios.blogspot.com/2018/06/los-origenes-de-los-clasicos-con-brasil.html

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